Do passarinho ao mouse-Fotos tratadas com photoshop



Ao intervir no resultado final de suas fotografias, há fotojornalistas que estão indo muito além do permitido, isso causa descrédito da classe e gera uma das crises do jornalismo, que decorre da falta de ética desses profissionais. Nos últimos anos inúmeras fotos que tiveram a realidade distorcida foram desmentidas pela própria mídia, o que intensificou a deficiência na credibilidade.

A mesma tecnologia que propiciou o avanço quase instantâneo na disseminação de imagens pelo globo, através da invenção das máquinas digitais, agora se depara com a manipulação ilimitada das mesmas. Vários problemas podem surgir, ainda mais se o veículo de imprensa para qual esse fotógrafo trabalhe não impor regras de conduta quanto às imagens digitais. Mas surge uma outra dúvida: até que ponto o simples tratamento digital dado à imagem pode comprometê-la? Estamos na era das melhorias pelo mouse, aliado a um bom programa de computador, como o Photoshop.
montagem de fotos com photoshop
O jornalismo de imagens permite que seu conteúdo seja falsificado, como ocorreu no Líbano há cerca de cinco anos, onde cenas de destruição foram alteradas durante o ataque de Israel, mais mísseis surgiram nas capas de jornais do que desabaram sobre o país. Outro caso bem conhecido é o do fotógrafo do Los Angeles Times Brian Walski, que decidiu dar um ar mais dramático a uma cena que precisou durante a cobertura da guerra no Iraque e fez uma sobreposição grosseira de imagens. A situação já era caótica e ele quis dar um tratamento sensacionalista às suas fotos.

Acabou se equivocando, não percebeu que uma pessoa ficou com duas cabeças, a farsa foi descoberta e ele foi despedido ainda no Iraque. A história está repleta de remanescentes de adulterações fotográficas. Personalidades como Stalin, Mao, Hitler, Mussolini, Castro e Brezhnev também tiveram suas fotos manipuladas – para criar desde poses de aparência mais heróica, e até para eliminar inimigos.

De acordo com o fotojornalista Juca Varella, a manipulação começa muito antes do clic, já que repórteres fotográficos não são meras máquinas de apertar botão. Eles têm que esperar um posicionamento diante dos fatos que retratam. Suas imagens são resultados de algumas variáveis, como objetivas, velocidade, abertura, uso de flash, filtros e principalmente enquadramento. Um mesmo assunto pode ser mostrado de forma fria e distanciada por um profissional e de forma trágica pelo seu concorrente.

Um grande problema é que, ainda hoje, a fotografia é tida como documento, como prova do real, então quando situações conflitantes de distorção da realidade ganham destaque na mídia, o fotojornalismo fica em posição de descrédito por parte dos receptores. “Antes de documento, as fotografias jornalísticas são opiniões”, afirmou Varella em palestra na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), durante a Semana da Comunicação, o que evidencia que o fotógrafo faz uma escolha quando decide registrar uma situação em detrimento de outra, mas após disparar o flash não possui mais direito de intervir sobre a imagem registrada.

O público não confia mais tão cegamente nas fotografias como antigamente e a falta de ética de profissionais envolvidos em escândalos só piora a situação, pois se atrapalham com a escassez de profissionalismo, e o que representava o instante único de um acontecimento instantâneo, agora pode ser modificado.”Os novos fotojornalistas estão vendo a realidade de uma forma diferente”, afirmou o fotógrafo Cacá Monteiro em seu Fotosite.

A fotografia está desacreditada, agora o receptor precisa acreditar no fotógrafo, que se manterá ou não no mercado através de sua ética, a época do “Olha o passarinho” passou, agora é tempo da realidade esculpida a mouse.



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